quarta-feira, fevereiro 05, 2003

Registros da jornada em busca do centro do Caern- parte 4:

Na madrugada de ontem a chuva deu uma pequena trégüa. Acordei o coração às pressas e começamos a guardar nossa barraca improvisada de volta em seu lugar, refizemos minha mochila e seguimos caminho na escuridão.
Para auxiliar, peguei um galho comprido que estava no chão e passei a usar de bengala, tateando o máximo que eu consegui naquele chão ainda lamacento e com restos de chuva armazenados nas copas das árvores respingando em meus olhos. O coração está inteiro remendado com bandagens limpas e está parecendo uma múmia branca por entre a penumbra densa da floresta.
Caminhamos bastante mesmo em passo devagar e cauteloso, mas a escuridão definitivamente estava encobrindo meus olhos como uma névoa persistente e cruel. Eu não conseguia enxergar um palmo à frente de meu nariz; peguei firme no braço do coração para que não nos perdêssemos devido àquela ausência de luz desoladora.

Sem caminhos, sem trilhas, somente me guiando pela audição e pela intuição: não sei quanto tempo se passou enquanto nos enveredávamos no meio da mata, mas a sensação de que a escuridão ia me engolir era muito grande. Parei por alguns instantes, abracei o coração e comecei a prestar mais atenção no ambiente...
Esse é o meu caern...construído em cima de tudo o que sou e acredito...por mais que eu tenha momentos escuros dentro de minha cabeça, tenho certeza absoluta de que sempre há um ponto de luz em algum lugar....sempre...sempre....

Ali.
Praticamente na minha frente, uma pequena chama começou a tremelicar em meio ao nada. Ela não estava ali até segundos atrás!
Peguei a mão do coração e fui correndo em direção a ela, pois mesmo com aquela luz aparentemente ínfima eu consegui ver perfeitamente o caminho onde eu deveria seguir- e por pouco não caí, de coração e tudo, dentro de um abismo.

A luz vinha de uma tocha, que eu havia colocado ali há muito tempo e que nunca havia sido acesa de verdade, tanto é que eu quase havia me esquecido dela. Logo embaixo dela havia uma trilha estreita e comprida que levava a outros caerns, outras localidades importantes e que eu nunca pude de fato seguir.
Não sei como a tocha se acendeu. Sei que eu a deixava sempre em bom estado para tal, mas talvez tenha sido algum desses raios após os dias chuvosos. No final das contas, eles se mostraram bastante úteis.

Contemplei a chama por alguns minutos, sorrindo diante da imprevisibilidade da vida. Sorrindo também, obviamente, por ter colocado aquela tocha lá anos antes sem nem ao menos ter certeza de quando ela seria utilizada. Mas sei que agora eu poderei trilhar o caminho por trás dela.

Dou uma piscadela ao coração, e continuamos seguindo viagem: porque sei que a chama não vai se apagar tão cedo.

Nicneven

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