quarta-feira, janeiro 29, 2003

Registros da jornada em busca do Centro do Caern- parte 1:

Encontrei meu coração no primeiro dia de viagem. Talvez isso tenha acontecido exatamente porque ele é uma das causas mais notáveis de meus desarranjos emocionais do período. E lá estava ele esqueirando-se pelas sombras das árvores (como se eu não fosse notar aquele brilho oscilante e ao mesmo tempo vívido por detrás dos troncos...)
Fui até ele. Já não sangrava, o que era bom; porém haviam marcas horríveis feitas principalmente pelo próprio em si mesmo, e doía saber que aquilo fazia parte de mim. Sentei ao seu lado, e segurei sua mão enquanto ele chorava compulsivamente.

E enquanto ele se debulhava em lágrimas, comecei a lembrar da quantidade de coisas horríveis que ele já suportou nessa vida. Atitudes realmente cruéis, sentimentos desprendidos sem reconhecimento, amor duramente menosprezado. Mas ele sempre agüentou, sempre curou as próprias feridas, sempre brilhou muito- muito mais do que esse mero lampejo que eu vejo hoje. Ele é forte, eu sei disso. O pobrezinho sabe dedicar-se inteiramente a algo tão belo quanto o Amor, sempre soube. Certo: eu sei que ele às vezes mergulha muito fundo. Talvez tenha sido exatamente isso que ele fez dessa vez; foi tão fundo que agora não se lembra sequer de como chegar à superfície novamente.

Mas não adianta eu explicar isso pra ele, o sem-vergonha vai ouvir mas vai se afundar cada vez mais, cada vez mais. Antes de sair nessa jornada, eu ouvi dizer que "o fundo do poço têm mola". Contei isso pra ele, e teimosamente dei uma pequena bronca relembrando-o de quantas coisas maravilhosas ele já viveu e quantas mais estão reservadas a ele. Então o danado me olha com aqueles olhinhos levemente lacrimejantes, e agradece. Sei que ele está se recuperando, não vou esperar uma mudança brusca e rápida como se eu tivesse uma varinha de condão. Mas acho que lancei uma corda, e mesmo estando lá embaixo ele viu e decidiu pegá-la.
Talvez, nesse caminho do fundo até a base de novo, ele possa encontrar outras pessoas na mesma situação, e assim notar que realmente não está sozinho. Talvez nessa jornada ele se fortaleça ainda mais, e quando chegar à superfície de novo ele encontre um outro coração emergindo das águas junto com ele e que olhe em seus olhos da maneira mais doce do mundo, e que ambos notem que não estão sós. Não mais.

Descanso, e parto para mais um dia de jornada, e deixo para trás um coração ainda machucado mas que agora está cuidado de verdade de suas feridas.

Nicneven

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