
"Mas eu não quero me encontrar com gente louca", observou Alice.
"Você não pode evitar isso", replicou o gato.
"Todos nós aqui somos loucos. Eu sou louco. Você é louca."
"Como sabe que eu sou louca?", indagou Alice.
"Deve ser", disse o gato, "ou não estaria aqui"
Lewis Carrol, "Alice no País das Maravilhas"
Um dos diálogos da minha vida, e ainda com um de meus gatos preferidos.
Durante alguns anos de minha vida( dos 15 aos 17) Alice no País das Maravilhas foi mais que um caso de amor à uma história; foi uma fixação. Até hoje tenho guardados alguns originais para uma nova edição do livro que, espero, um dia saiam daqui de casa e tornem-se realidade.
Foi meu contato mais óbvio com o nonsense que mais tarde fixou-se definitivamente na minha vida; imaginar uma menina perdida dentro de sua própria cabecinha psicótica infantil - mas nem tanto, afinal a senhorita Lidell era vitoriana e ninguém naquela época era lá muito inocente...
Alice sempre me fez pensar no mundo que podemos criar para nós mesmos, e até onde podemos afundar nele. Notar que a mente humana pode alcançar caminhos obscuros e interessantes se de fato permitirmos, se nos livrarmos até mesmo de nossas próprias amarras. "Mas assim estaríamos agindo como loucos!" Ora, em algumas épocas pessoas sãs se fingiam de loucas para terem acesso à liberdade de pensamento.
E isso cai em outra figura de fascínio do mesmo período da tara por Lewis Carrol: os bobos-da-corte, e seu conceito mais interessante de poder peitar um reino e ser livre para tal. Claro que isso pode ser uma versão romantizada, mas não importava pra mim: aquelas criaturas de roupas estranhas e ironia à flor da pele me cativavam.
Somos todos loucos. Uns mais conscientes, outros não.
Nicneven

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