domingo, setembro 14, 2003

No Pressure Over Capuccino

Um belo dia notamos que não temos controle de coisas que anteriormente nos eram nitidamente controláveis. Então, percebemos que somos obrigados a abrirmos concessões a uma coisa; depois duas, três, dez, vinte, e quando ficamos um pouco mais velhos notamos que praticamente toda a nossa vida está calcada em concessões a outras pessoas/situações/coisas. Nossa vida não pertence mais integralmente a nós mesmos: temos que submeter nosso bem-estar, nossa sanidade mental e física em prol de um lugar no...você escolhe: esquema, sociedade, sistema, matrix.

Eu não vejo glória alguma em ter meu lugarzinho no status quo padrão da sociedade atual. Ter um emprego, uma casinha, filhinhos, e ambicionar mais e mais subir na carreira.
Que carreira? Pra quê essa carreira? Pela glória de subir cada vez mais ao topo à base de pisar em cabeças humanas mais baixas que eu? E aliás... onde é que esse topo vai me levar?

Sim, eu terei meu empreguinho e minha casinha; quem sabe no futuro possa até ter os tais filhinhos; mas eu não faço parte dessa corrida selvagem. Eu escolhi desenhar, minha profissão e dom natural é com os pincéis e lápis; mas talvez minha inadequação comece aí. Eu não quero trabalhar com arte. Já quis; porém estar estudando e convivendo com pessoas do âmbito das artes me faz crer cada vez mais que eu quero desenhar por mim, para mim, pelos meus colegas e, essencialmente, pelo prazer. Arte pra mim é prazeroso, é um alívio, é algo que me dá plena satisfação pessoal. E infelizmente cada dia mais isso está sendo vítima de corrupção em prol do "você têm que trabalhar com isso, têm que mastigar seus inimigos e chegar ao podeer!!"

Não. Eu digo não a tudo isso. Prefiro a satisfação pessoal do prazer que é desenhar do que a satisfação pessoal de ter passado vários para trás e ficar engolindo sapo só pra ganhar fortunas (e úlceras e safenas no processo).

Se eu pudesse, se pudesse mesmo, faria o caern sair da minha cabeça e o colocaria no mundo real. Iria para alguma cidade pequena próxima, trabalharia na secretaria de cultura do local, criaria meus cachorros e manteria uma singela fazendinha com muitas árvores. Sairia com muito gosto de perto dessas criaturas que me fazem mal. E voltaria a ter controle sobre minha vida; pararia de fazer concessões a situações que simplesmente não merecem.

E enquanto isso, fico feliz em saber que mesmo com essas concessões eu consigo desejar e planejar tudo isso que citei aí em cima. E o melhor de tudo: que pude desabafar isso aqui com meus botões. E danem-se os que vão achar tudo isso melancólico/chato/triste: agentes-sorriso, até vocês têm momentos de introspecção :-Þ

Nicneven

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