sexta-feira, agosto 23, 2002

Ontem estava lendo o blog nada trivial da Kath e vi um post bacana sobre um momento insólito. Eu gosto muito dessas situações, e esse é um bom medidor do quanto nossa vida está dentro dos padrões de loucura normais: quanto mais eventos assim, mais estamos cumprindo nosso papel nesse plano: viver É uma sucessão de fatos insólitos, quem não sobre deles de vez em quando com certeza não vive bem.

E então, me lembrei de um pequeno fato que ocorreu na terça-feira passada (20/08). Aviso aos fervorosamente religiosos: este post contém conteúdo que pode ser um pouco ofensivo a certos ramos do Cristianismo. se você não gosta de ver essas coisas, por favor não me acuse depois, é só não ler. Grata.

Era noite, daquele tipo de noite quente de inverno que está se tornando lugar-comum aqui em São Paulo. Uma certa pessoa muitíssimo querida a mim estava triste e cansada e pensei que seria uma boa fazer uma visita fora de hora e dia a ela, e graças aos céus e terra ela concordou sem pestanejar. Eu poderia pegar apenas uma condução pra vê-lo, mas como estava escuro e minha vizinhança não é um bairro chique e nobre de classe A/B, acabei indo até um bairro próximo e de lá, pegaria metrô.

Ônibus praticamente vazio, Nicneven esparramada no banco mais alto ouvindo walkman e cantando B-52's mentalmente mas sem deixar de fazer a famosa cara de "não sentem aqui do meu lado, isso pode não ser saudável a você". Julgando que o ônibus tinha realmente muitos lugares, somente a cara de vilã afastava.

Mas desta vez, não deu. Um homem aparentando uns 40 anos, mulato bem clarinho que nem adianta dizer que é negro, barba rala e roupas não chamativas sentou-se bem do meu lado. Dei o famoso suspiro de "p*** merda, que droga", cruzei meus braços e continuei olhando pra janelinha. Notei que o sujeito carregava um livro bem grosso nas mãos, e minha mente rápida e subversiva logo pensou: "Ow droga, lá vai ele me oferecer algum papelzinho de igreja caça-níqueis ou dizer que Jesus me ama".
------ Dito e feito!!!! Ele me cutuca e mostra um folheto onde só distingui a imagem de algo parecido com um templo evangélico e uma igreja ao lado. Por incrível que pareça eu disse um simples e firme "Não, obrigado" e virei minha cabeça de volta à janelinha (quase batendo-a no vidro de tanta raiva).
Por que diabos eles têm que ficar utilizando esse tipo de pregação religiosa inconveniente e invasiva?? Por que irritar as pessoas que visivelmente são de outra religião, numa tentativa débil de convertê-las?

Pensando nessas palavras, me toquei de que a intenção do cara era justamente essa ao escolher sentar justo do lado de uma mau-encarada que nem eu..."Deve cultuar o demônio pra ser assim". E fui ficando um pouco descontrolada com o abuso, pensando em uma porção de coisas que ferem nosso direito de liberdade de culto e de pessoas que, como ele, acham-se no direito de julgar e querer exterminar outras religiões. Então pensei que esse homem deveria era ter medo de ficar forçando pessoas a serem o que não são e não pretendem ser, e dei outro suspiro. O cara inclinou-se totalmente pra olhar a minha cara com um ar de temor que me deixou, no mínimo, feliz. O ponto de ônibus onde eu desceria estava próximo, e pensei:"Não quero ter que pedir licença pra esse cara pra poder descer do banco porque daí ele vai falar qualquer coisa sobre 'Jesus vai me salvar' e tal. Seria muito bom se ele descesse primeiro..."
------- Dito e feito pela 2ª vez!! Não deram nem três segundos o cara levantou; mas teve que dizer, olhando de canto de olho com uma voz mista de temor e indignação, "Que Deus te abençoe", e desceu.

Eu? Eu arregalei os olhos deste tamanho O.O ao ver minhas capacidades Jedi em plena forma, e tive que segurar o riso até telefonar ao meu rapaz e contar essa aventura. E não é que eu não acredite em Deus, mas podem ter certeza de que, pra ter espantado o "encosto", Ele e Ela me abençoam mesmo!!

Mistress Nicneven

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